segunda-feira, 31 de março de 2008

A Viagem

Uma aragem quente de fim de tarde enrolava nela pedaços de uma jornada, quiçá de um ano atribulado. Afinal tudo, se resumia a este momento…
duas jovens que mal se conheciam sentadas numa paragem de autocarro deserta.

O ar estava quente, abafado por um verão que se alongara, a paisagem inóspita que as engolia, cobria-se de tons dourados e vermelhos. Fazendo-as sorrir, cansadas e felizes.
Expectantes, olhavam para aquela imensidão que se reflectia abruptamente nos seus espíritos inquietos. O autocarro parou. Entraram e deram largas à imaginação, a poucos quilómetros junto à praia encontrariam o seu destino. Um daqueles destinos, que não se finda com o calor do verão, nem com paragens de autocarro, talvez daqueles destinos que soltam amarras entre marés…


 

Tinham-se conhecido há poucos meses, mas a aproximação acontecera exactamente no inicio desse verão.
Coincidências, não existiam para elas, preferiam justificar estes acasos da vida com respostas filosoficamente rebuscadas, temperadas com a misticidade da vida e do espírito. Tudo acontecia porque o alinhamento cósmico assim o previra. Ele, sim o verdadeiro responsável, não elas, já mais o haviam previsto e ainda menos o que estaria para vir.

Ana, a mais nova das duas, é que falara deste local, conhecia-o bem, ali passara verões e fins-de-semana da meninice. Ali, naquela mesma zona, entre pinheiros e grãos de areia, deu os primeiros passos de uma adolescência que não se mostrava pacifica. Morena, de olhos negros brilhantes, daqueles que não deixam escapar detalhes, nem se permitem a passar despercebidos. Descrevia cada pedaço de terra e de gente, como se folheasse um velho diário, atropelando-se em fragmentos e desejos entusiasmados. Tentando sufocar a ansiedade, própria de anfitriã, discorria pensamentos, para os corrigir e alterar imediatamente… preocupava-se visivelmente com o que poderia ser possível ou não fazer, para tornar estes dias, nuns dias dignos de pertencer a um livro de memórias.

- Ir a onde? Fazer o quê? Conhecer quem?!

Interrogava-se Sofia, suspensa no meio dos pensamentos cambaleantes da amiga, submersa em tanta informação fragmentada, deixou-se levar pelos seus próprios pensamentos e expectativas.
Lembrava-se, o local não lhe era estranho de todo, em tempos havia passado por lá de noite, naquelas actividades de escuteiros que duram uma madrugada, mas na verdade não lhe era estranho por isso mas porque a mãe lhe havia falado desse local, e segundo se lembrava eram boas as recordações que esta guardava, lembrava-se também que isso tinha contado um ponto a favor, quando a informou que tinha em mente esgueirar-se com uma nova amiga, por uns dias para aquele destino. E ali, estava ela numa terra que em tempos fora de pescadores, à espera do que lhe poderia cair na rede.

À chegada, estava já tudo planeado, nessa noite iriam a casa só para se desfazerem do peso arrastado das malas, arranjarem-se, comer qualquer coisa para depois saírem, dariam um giro pela aldeia para que Sofia conhece-se os velhos amigos de Ana. Tudo estava planeado, tudo, menos a falta de gás. A casa estendia-se à entrada com um tapete verde, e o sapo que estava de guarda, camuflado no tapete, recebia-as com um ar entediado. Uma casa de piso térreo, em forma de L, branca como a região pedia, mostrava-se pitoresca e acolhedora, resguardada no fundo de uma rua, de costas voltadas ao pinhal e de janelas viradas à maresia, encaminhava-as para uma cozinha pequenina, que servia de entrada prática, a pés e corpos cobertos de areia.

Os sacos tinham sido largados, um pouco por todo o lado, a sala revelara-se muito acolhedora, cadeirões de verga, cobertos por almofadas floridas e um sofá escondido por mantas e tecidos, preenchiam o espaço que se completava com uma lareira extinta, e uma mesa que adivinhava algo paranormal. Afinal estavam no sopé do monte da Lua…

- Não, há gás! A bilha está vazia.
Constatou, Ana ao verificar porque é que a torneira de água quente teimava em deitar só água fria.

- A serio? E agora, a esta hora não deve haver sitio nenhum para arranjarmos uma…
Desmotivada, respondia à amiga enquanto abria as portadas da sala para o jardim.

-Não, interessa, amanhã tratamos disso, hoje vamos jantar ao Barmácia.

- À farmácia?! 'tás tonta, achas que me serve de jantar umas aspirinas? Já agora como sobremesa um prozacquesito!

- ah ah ah, tu é que és tola! Eu não disse farmácia, disse Barmácia, é um spot onde servem uns hambúrgueres e também é um bar! Duh!

Sofia, sentiu-se corar. Num misto de indignação e ingenuidade. Como ela odeia estas coisas, a cara dela nunca vai de acordo com o discurso, facilmente espelha aquela vermelhidão, que a embaraça constantemente… e isso contraria completamente a sua maneira de ser, gosta de ter tudo delineado, faz o género de aventureira, mas na realidade só ela sabe como adora a ordem, de ideias e dos actos, pouco lhe agrada os sobressaltos, tudo pode ou deveria ser planeado. E isto de ser apanhada, pela amiga mais nova, mais a súbita mudança de planos, vinha chocalhar em demasia a sua postura de segurança número 345, usada só para defesa, de locais e pessoas que mal conhece!
Agitou-se ainda mais, quando reparou que a amiga, pegara no telemóvel e rolara por uma lista infindável de nomes, à procura de companhia para o jantar.
Sossegou momentaneamente, quando a central telefónica resultara em zero, em companhia para o jantar, mas o esforço da amiga tornou-se mais produtivo, demasiado, produtivo para a sobremesa, por alto já contara cerca dez nomes…

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