terça-feira, 10 de agosto de 2010

Uivo

Gemem as negras folhagens, que me circundam...
No alto, ergue-se o majestoso candelabro celeste,
e na planície espraia-se um lago de luar,
Tremo, inquieto-me, na imensidão que me engole gentilmente.

Paro, escuto, alertam-se-me os sentidos!
Sinto o rondar de uma fera,
O redistribuir do seu peso a cada passo silencioso,
O eriçar do manto molhado,
O arreganhar das presas afiadas...

Fecho os olhos. Preparo-me.
Para receber o salto que vem na minha direcção.
Essa garra que arranha o instinto,
Essa força pujante de um animal humano,
Essa fome após o letargio invernal.

Contraio-me. Recebo-te.
Sou o alvo e o dardo,
Sou um sôfrego respiro sobre o teu arfar,
Sou um olhar curioso que a tua visão deixa capturar,
Sou um toque fluido na tua negra pelagem perdido.

Perco-me. Fujo-te.
Não sem antes,
Pregar o meu odor ao teu olfacto,
Dar o meu sabor ao teu paladar,
Vincar as (nossas) pegadas num caminho,
Entregar a minha dor ao teu destino,
Tatuar-te em mim.

Teimo.
Num gesto nu, adormento-te a vontade.
De lábios mordidos e punhos cerrados, tomo o trilho contrário.
Ficando na noite do lobo,
A lenda, dum uivo gravado (dum triste latido uivado)...

4 comentários:

  1. De facto sempre te vi mais como predadora do que presa;
    E no final de contas sempre foste tu, moira, a decidir o teu destino.

    Gostei! Agora só falta fazermos o nosso cinzeiro!!!

    Beijo

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  2. Há destinos que temos de ser nós a trilhar, escolher para que lado cortar perante as encruzilhadas!^
    É um risco que temos de enfrentar!

    sim, o cinzeiro é imperativo!
    as beatas da alma e os borrões do coração, precisam de sítio para assentar!!

    Beijo

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  3. este texto está sensacional. fazia tempo que não te libertavas assim. tudo confluia para um turbilhão como este. Parabéns ^^

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  4. Obrigado Moretti pelo comentário! :)

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