sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Romarias modernas


Entrámos, por excelência no mês das férias dos portugueses, a promissora flexibilidade por mais que tente não consegue contrariar esta tendência… esta altura do ano, está repleta de viagens, deslocações - daquelas vá para fora cá dentro - alguns no meio da crise ainda conseguem ir lá para fora, mas o forte de Agosto são, os que fazem vida lá fora mas que nesta altura retornam, à "pátria".

Se existisse uma animação computadorizada destas andanças, veríamos um país a deslocar-se para sul – faminto de praia e água morna e de pôr em prática as aulas de língua estrangeira. Veríamos com facilidade, uns carros repletos até ao tecto onde a visibilidade seria mínima, afinal ir de férias não quer dizer que nos privemos dos bens que nos fazem falta, já chega as cadeiras das crianças nos virem roubar espaço… põem-nas seguras, mas antigamente cabia lá o saco da renda da avó! Mas como somos solidários e queremos preservar os nossos idosos, resolvemos que não iríamos fazer a avó passar por uma viagem tão maçadora e deixámo-la aos cuidados, dos peritos em geriatria… como quem diz, no hospital mais próximo!
Descobriríamos também, caravanas, roulottes e atrelados, a fazer uma procissão até ao parque de campismo, e enquanto as caravanas passavam os cães iriam ladrar, uivar e gemer à procura de um dono, que deixou de o ser, no meio da azáfama das férias;

Com atenção olharíamos para as estações de comboio que povoam o sul do país e descobriríamos os errantes jovens de mochila e tenda às costas, que neste mês trocaram a Playstation pela prancha que trazem debaixo do braço, à procura de um momento mágico na costa vicentina! 
Com o olhar apurado, vislumbraríamos alguns carros desportivos com capota aberta, ora com ocupantes de meia-idade, com os tacos de golfe a fugir do que se julga ser o banco de trás, ora os filhos desses árduos jogadores, a acelerar A2 abaixo, de forma a chegar a tempo da "festa branca" da discoteca mais badalada… 

No meio do trânsito do verão, um pouco por toda a parte, encontraríamos diversas vezes, a célebre frase: "Casados de Fresco" presa na parte de trás de automóveis de topo, afinal dá gosto, aos jovens casadoiros, ter os parentes todos, mesmo aqueles que nunca viram, bem aprumados na sua boda: a noiva, os padrinhos, o pai e a menina das alianças que corre nave a dentro a fugir dos calores de Agosto…

Mas mesmo antes de terminarmos, repararíamos, nas fronteiras terrestres do país, e como uma criança iríamos jogar ao jogo dos países através das matrículas que se dispersavam por todo o território, com uma ligeira inclinação para o norte. Não, não são estrangeiros, são portugueses que vêm matar saudades, esse sentimento muito nosso, esse que nos faz sentir falta das gentes, dos ofícios já em desuso, de sabores - do azeite e do bacalhau, dos cantares e da língua, da aldeia que o Google não encontra porque é só nossa, é parte do nosso património, da nossa memória. Essa aldeia, algures entre uma e outra geração, tornou-se um bibelot a que só é retirado o pó nesta altura. Durante o ano envelhece num silêncio de outros tempos, mas em Agosto respira vida, toma lugar no centro da mesa ao lado do bom vinho e da jarra das flores, rodeia-se de pratos típicos, quermesses, colchas ricas a enfeitar varandas, farturas, pálios, anjinhos, enchidos, estandartes, trajes domingueiros (que de domingo têm pouco), bandas filarmónicas e bailaricos!

São as festas destas aldeias, que me chamaram a atenção. Em Agosto, multiplicam-se as festividades religiosas, e como é época de estender a toalha aos que nos visitam, as riquezas da nossa cultura finalmente viram orgulho e desempoeiram-se do sindroma de inferioridade que alastra no país, os santos padroeiros são homenageados nas ruas e em casa as famílias e os amigos partilham o serão, a companhia, a adega, a conversa, a doçaria e a boa disposição. Numa casa portuguesa em Agosto, senta-se à mesa o filho que veio de Lisboa e o primo do Luxemburgo, a recordar os verões da infância - a apanhar amoras, a saltar de quintal em quintal, a pôr a vida negra à D. Maria, que ainda se lembra deles, de anjinhos na procissão… que ricos meninos!

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