De repente a sala do jogo, tornara-se demasiado pequena, claustrofóbica, para que os dois pudessem estar ao mesmo tempo, ali. Felizmente, os outros também acusavam algum cansaço e falta de verbas para continuar a picardia. Assim, mais uma vez em jeito de rebanho deslocaram-se para o exterior.
Em frente ao bar, erguia-se um amontoado de betão, desenhava-se verticalmente um novo edifício, que cortava antipaticamente parte da vista, da rua principal, para o mar. Assentaram arraias, em frente ao edifício. A essa hora da madrugada, os corpos já acusavam o cansaço do sol da tarde, e qualquer lugar era demasiado longe, para a preguiça que arrastavam nos músculos, doridos pela repetida rebentação das ondas matinais. Sem mudanças de relevo, as conversas seguiam os rumos anteriores. Todas menos as que se passavam na cabeça de Sofia. Soterrada em questões e inseguranças, ansiosa por libertar-se num grito, que fosse, mas a sua boa educação não lhe permitia. Queria confrontá-lo, mas faltava-lhe a coragem e temia o ridículo. Sentiu-se afundar numa espiral de controvérsia emocional. Que se exprimia cinicamente, num sorriso e em gestos bem coordenados e harmoniosos.
Olhou, para trás e viu aquele gigante cinzento riscar o céu nocturno, de repente viu que algo estava suspenso, do topo para baixo e que reflectia a luz da aldeia. Foi o sinal que precisava. Irrompeu, pelo esqueleto de betão a dentro, subiu, subiu, e tornou a subir os degraus que a levaram ao topo, ao terraço que fechava o complexo sistema de betão e o abria às estrelas da noite. Fechou os olhos e respirou fundo, numa fracção de segundo estava só, livre e cheia dos elementos que respeitava, o mar, o vento e o luar.
Uma fracção de segundo, foi o que durou o isolamento, quando abriu os olhos, já uma voz vinha no seu encalço, e atrás dela, alguns pares de passos. A voz, não era de quem ela queria, era uma voz arquitectada de enredos e sedução. Quando próxima, manifestou-se preocupada e interessada em acompanhar a loucura demonstrada. Era alto, magro, bem-disposto e cavalheiresco demais para os tempos que correm, agia de forma ambígua tanto poderia querer revelar sedução como atenção ou delicadeza. Finalmente, reparara nele. Ele estava aliviado e visivelmente intrigado com esta pessoa que não lhe dera atenção. Via-se que estava habituado a ser o centro das atenções. E esta nova "amiga" nem reparara nele, e ainda por cima em detrimento de outro, e isso sim desconcertava-o.
A ideia que tinha sido de escape, tornara-se perigosa, afinal nem todos estavam no seu mais lúcido perfil. Alguém, um tanto alcoolizado aproximara-se arriscadamente da berma do edifício. Isso fez com que todos recuassem à entrada firme e sólida do prédio. Bastava de emoções por essa noite. Daí a umas horas, nasceria um novo dia. E tal como chegaram, foram partindo um a um, com promessas de amanha.
Por fim, ficaram novamente as duas, sentadas numa fonte que circundava um ângulo da rua principal, perpendicularmente à fonte, rompia-se na paisagem a rua que deveriam subir, até casa. Enquanto ganhavam coragem, para passar pelas ruas desertas assombradas pelo pinhal, fizeram o balanço da noite, da viagem, das duas, do ano… Levantaram-se e encaminharam-se para casa, ao som das suas vozes a entoar os Loucos de Lisboa.
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