segunda-feira, 31 de março de 2008

A sobremesa

O jantar, tinha sido com uma agradável vista sobre um mar, que se decorara de negro, e a sobremesa decorria agora numa sala adjacente à do jantar.
Estavam as duas de férias, sozinhas, e já se sentiam tão adultas e vividas, que só poderiam escolher para sobremesa umas caipirinhas. Eram, a escolha certa para brindar a esse gosto adocicado de liberdade.

Sofia, tinha atingido nesse ano a maioridade, e como se isso já não bastasse, esperava o resultado da candidatura à faculdade. Andava tensa desde o inicio do verão mas tentava a todo o custo disfarçar, às vezes sem efeito, procurava concentrar-se noutras coisas, ou ocupar-se em fazer nada, era para isso que este verão serviria, para NÃO fazer nada, para além de se divertir.
À Ana, ainda lhe faltavam um par de anitos para passar por esta amarga espera. Apesar de ser ela a anfitriã, não conseguia fazer com que Sofia, não se sentisse responsável também por ela, não de uma forma maternal, mas em jeito de irmã mais velha (se bem que como filha única não sabia se era exactamente assim que se sentiam os irmãos mais velhos em relação aos mais novos). Mas este era o seu jeito de se preocupar com os outros. Aliás, havia nela, uma incrível necessidade de se preocupar com os outros, tornando-se por vezes realmente irritante. No seu seio de amigos, era vista como a mamã, pelo conselho e advertência, que tinha sempre pronto na ponta da língua, um dia iria descobrir que a sua melhor qualidade poderia ser simultaneamente o seu pior defeito.

Aquela praia, tornara-se a ilha deserta para onde levavam os amigos, longe dos olhares reprovadores dos pais, podiam dar azo à criatividade e esgotar as horas da noite bem longe das quatro paredes de um quarto.

A hora combinada, aproximava-se e em breve a mesa agora apenas ocupada pelas duas, esconder-se-ia, por baixo de vários braços, mãos a gesticular, telemóveis, copos e bases de copos. Sofia, puxou do cigarro e olhou para a janela em busca de coragem, para distribuir sorrisos e amabilidades a desconhecidos, devia isso à Ana e sobretudo a ela, era a sua prova de fogo.
Voltou à realidade pela voz da amiga, que lhe cravava um cigarro, não é costume faze-lo, tem vezes… os de Ana, tinham acabado, e ela demonstrava preguiça em ir à máquina, que ficava do outro lado da sala. Nesse tempo, os cigarros ainda estavam ao alcance da mesada que recebiam, mas já se adivinhavam piores dias…

Foram chegando, uma hora depois estavam rodeadas, de gente bem-disposta que se atropelava em conversas. Actualizavam a amiga, quanto às ultimas cusquices da zona, quem andava com quem, que um bar novo tinha aberto, que outro tinha mudado de gerência, que o miúdo radical da aldeia vizinha prometera desforra ao joãozinho, por causa de uma corrida de moto 4… no meio destas banalidades vividas ao rubro, Sofia deixou-se ir embalada pelo som desta salganhada de gente, ia tomando as histórias como suas…

Manifestamente, eram mais rapazes que raparigas em volta daquela mesa, para além das duas, contava-se mais uma rapariga - que seria namorada de alguém e outra que pontualmente aparecia para dar o seu cunho pessoal ao relato. Sem surpresas, estava bastante marcado nas suas experiencias que se entendiam melhor com rapazes do que com raparigas, efectivamente tinham sido dois rapazes que as fizeram cruzar caminhos, dois melhores amigos. Ironicamente aquela noite trazia consigo, novos conhecimentos, portanto novos rumos…

 

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