Uma certa tendência, generalizada, evidenciara-se nessa noite, os rapazes andavam mais santos que as raparigas! Renegavam os maus hábitos do tabaco em detrimento de uma vida mais saudável por entre as ondas surfadas durante o dia, trocavam o teor alcoólico das bebidas coloridas pelos apetitosos gelados que trincavam entre gargalhadas… eles que eram mais velhos, sim mais velhos que elas, mais livres e encorajados a viver a vida de forma mais folgada, faziam-nas sentir demasiado urbanas, deslocadas, num clima de verão que se queria saudável.
As horas foram-se dilatando e numa proporcionalidade inversa, o Barmácia tornara-se pequeno para tanta agitação. Saíram, as ruas que à hora de jantar estavam vazias, enchiam-se agora de gente, quase toda jovem, que aos pares, aos grupos a pé ou de mota circulavam de um lado para o outro. Transportando consigo um ruído alegre.
Foram-se arrastando até à esquina, onde um banco improvisado, o muro que os separava da praia, esperava por eles. Continuaram, a animada conversa, pontuada por piadas ou gracinhas feitas uns aos outros, daquelas que só nos atrevemos a fazer, com quem temos grande intimidade, enfim coisas de miúdos. Destacavam-se da multidão, pela sua diversificidade, amigos ou conhecidos mas todos bastante diferentes, uns tímidos outros galãs, uns cómicos outros sérios, uns exaltados outros alienados, mas todos partilhavam o mesmo tom de pele de fazer inveja, todos partilhavam as mesmas horas do dia, entre as dunas e as ondas do mar, e ali à noite na sua diversidade, reuniam-se entorno das histórias que lhes eram comuns. Do futuro arquitecto ao futuro médico, da engenheira à "artista" encontrava-se de tudo, sempre com aquela efervescência da juventude, do céu como limite.
As atenções viraram-se para José, Zé para os amigos, ele que dentro de alguns anos seria um doutor de bata branca e estetoscópio ao pescoço, se bem que bem longe de saber em que área, cativava a atenção de todos, por meio de um relato pormenorizado, de algumas experiencias de urgências, daquelas de embaraçar o paciente e causar o deboche dos ouvintes. Apesar, de ser o causador de ondas de gargalhadas associadas a expressões de repudia, pena e puro gozo, encobria-se por detrás de uma postura tímida na qual os óculos reforçavam o efeito pretendido.
Foi então que Sofia, reparou nele. Depois do reboliço que causou ter amainado, aproximaram-se casualmente, trocando duas palavras, algo sobre vela. A vela é um dos desportos que a fascinava e que ela de certa forma praticava, provavelmente mesmo o único, tendo em conta a sua aversão a desportos. Ele, por seu turno, mostrava-se entusiasmado com a ideia de se tornar praticante, contara-lhe que tivera uma experiencia, e que se apaixonara pela modalidade. Ironicamente um desporto náutico acendera um rastilho que poucas águas apagariam…
Bastaram duas palavras e uma ideia, para se tornarem em torrentes delas, e todo o ruído em torno tornara-se silêncio, só os dois, no meio da multidão. Os olhos acompanhavam cada palavra e só se desviavam para contornar as linhas do rosto. Os mesmos olhos, procuravam timidamente e de forma fugaz, esbarrar-se com o entusiasmo reflectido no olhar, do outro.
Dificilmente passariam despercebidos, ao olhar escrutínioso dos amigos, notava-se no ar e nos gestos. Sofia, quase que jurava que se ouviriam os seus batimentos cardíacos descompassados, há muito que não sentia nada semelhante, uma espécie de vertigem, de calor, de alegria espontânea e de sorriso instantâneo que teimava em não lhe largar os contornos dos lábios, sentiu uma secura na boca sublinhada por um olhar simultaneamente meloso e tímido. Assim, sem aviso prévio ou sem motivo, tinha-se encantado, e agora, descortinava se algo semelhante se passaria do outro lado.
Estava certa. Não demorou muito, para que os demais notassem o duplo entusiasmo, e rapidamente, o rapaz que fez todos rir, era alvo das facadinhas dos amigos, e por arrasto, Sofia a "intrusa", também não escapou às investidas humorísticas do grupo. Que se materializariam mais, através da câmara imaginária do futuro arquitecto… um dia Sofia iria descobrir porquê…
Aquela noite ainda estava longe do fim, mas naquele instante sem saber, Sofia, tinha rasgado na sua vida as vias que iriam marcar os próximos anos. Como um tridente a arranhar o solo, feito de areia molhada, desenovelara a sua própria trindade, que era dada por gente: amizade verdadeira; uma espécie de amor generoso e paciente; e por fim uma atracção intelectual conjugada com ciúme que se exprimia na pele.
Os dados estavam lançados… e noite ainda por terminar…
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