segunda-feira, 7 de abril de 2008

O Prédio em Construção

De repente a sala do jogo, tornara-se demasiado pequena, claustrofóbica, para que os dois pudessem estar ao mesmo tempo, ali. Felizmente, os outros também acusavam algum cansaço e falta de verbas para continuar a picardia. Assim, mais uma vez em jeito de rebanho deslocaram-se para o exterior.

Em frente ao bar, erguia-se um amontoado de betão, desenhava-se verticalmente um novo edifício, que cortava antipaticamente parte da vista, da rua principal, para o mar. Assentaram arraias, em frente ao edifício. A essa hora da madrugada, os corpos já acusavam o cansaço do sol da tarde, e qualquer lugar era demasiado longe, para a preguiça que arrastavam nos músculos, doridos pela repetida rebentação das ondas matinais. Sem mudanças de relevo, as conversas seguiam os rumos anteriores. Todas menos as que se passavam na cabeça de Sofia. Soterrada em questões e inseguranças, ansiosa por libertar-se num grito, que fosse, mas a sua boa educação não lhe permitia. Queria confrontá-lo, mas faltava-lhe a coragem e temia o ridículo. Sentiu-se afundar numa espiral de controvérsia emocional. Que se exprimia cinicamente, num sorriso e em gestos bem coordenados e harmoniosos.

Olhou, para trás e viu aquele gigante cinzento riscar o céu nocturno, de repente viu que algo estava suspenso, do topo para baixo e que reflectia a luz da aldeia. Foi o sinal que precisava. Irrompeu, pelo esqueleto de betão a dentro, subiu, subiu, e tornou a subir os degraus que a levaram ao topo, ao terraço que fechava o complexo sistema de betão e o abria às estrelas da noite. Fechou os olhos e respirou fundo, numa fracção de segundo estava só, livre e cheia dos elementos que respeitava, o mar, o vento e o luar.

Uma fracção de segundo, foi o que durou o isolamento, quando abriu os olhos, já uma voz vinha no seu encalço, e atrás dela, alguns pares de passos. A voz, não era de quem ela queria, era uma voz arquitectada de enredos e sedução. Quando próxima, manifestou-se preocupada e interessada em acompanhar a loucura demonstrada. Era alto, magro, bem-disposto e cavalheiresco demais para os tempos que correm, agia de forma ambígua tanto poderia querer revelar sedução como atenção ou delicadeza. Finalmente, reparara nele. Ele estava aliviado e visivelmente intrigado com esta pessoa que não lhe dera atenção. Via-se que estava habituado a ser o centro das atenções. E esta nova "amiga" nem reparara nele, e ainda por cima em detrimento de outro, e isso sim desconcertava-o.

A ideia que tinha sido de escape, tornara-se perigosa, afinal nem todos estavam no seu mais lúcido perfil. Alguém, um tanto alcoolizado aproximara-se arriscadamente da berma do edifício. Isso fez com que todos recuassem à entrada firme e sólida do prédio. Bastava de emoções por essa noite. Daí a umas horas, nasceria um novo dia. E tal como chegaram, foram partindo um a um, com promessas de amanha.

Por fim, ficaram novamente as duas, sentadas numa fonte que circundava um ângulo da rua principal, perpendicularmente à fonte, rompia-se na paisagem a rua que deveriam subir, até casa. Enquanto ganhavam coragem, para passar pelas ruas desertas assombradas pelo pinhal, fizeram o balanço da noite, da viagem, das duas, do ano… Levantaram-se e encaminharam-se para casa, ao som das suas vozes a entoar os Loucos de Lisboa.

Trivial Pursuit

Esgotadas, as piadas e refrescado o ambiente… a noite prosseguia quente e agitada. Tão quente, que reclamava por líquidos, tão quente que fazia os corpos vibrar ao som de uma música distante. Inebriados pelo som que ecoava a um quarteirão de distância, deixaram-se levar ritmadamente até ele. Estancaram-se em frente, a um prédio branco, que os recebia num pátio, onde funcionava uma esplanada, que de esguelha se reclinava para a rua que dava acesso à praia, e de onde se podia reconhecer o seu contorno. Nas entranhas do pátio, abria-se em arco, a entrada, do que se adivinhava ser um bar. Entraram, deram uma volta, em busca de caras conhecidas. Enquanto, Ana fazia as honras da casa à amiga, ia sussurrando-lhe os segredos do lugar.
Ana, era visivelmente acarinhada por todos, também por eles era tratada como a maninha mais nova, que crescera depressa por causa das suas influências. Espevitada, bem-humorada, travessa, simples, interessada e interessante era sem dúvida o tipo de miúda popular, de fácil trato e de agradável companhia. Muito morena, e de expressões acentuadas, não evidenciava a diferença de idade em relação aos outros, pelo contrário certamente passaria até por mais velha que alguns elementos daquele grupo. Era sem duvida a rapariga-amiga-companheira de aventuras, e não a rapariga-presa-namorada, presença típica nos grupos maioritariamente masculinos. E Sofia, por arrasto deveria ser tida no mesmo contexto, mas cometera um deslize para além de ser a "novidade"…

O bar, dividia-se em quatro espaços, a esplanada, o bar-sala-pista, a esplanada interna, e um recanto que também tinha ligação com o exterior onde repousavam umas máquinas de jogos. Numa das máquinas de jogos, cintilava o nome do famoso jogo de tabuleiro, que testa os conhecimentos dos jogadores – Trivial. O suficiente por tanto, para cativar a atenção das duas amigas, que se achavam, para a idade, bastante informadas e com um nível de cultura expressivo. Desafiaram-se mutuamente, qual das duas saberia mais?! Não foi difícil perceber, que juntas é que eram a força, os conhecimentos das duas, conjugados abrangiam quase todos os temas tratados, Ana era dada às ciências exactas e à música, Sofia à história, artes e espectáculo, e ambas bastante fortes a literatura e simultaneamente bastante fracas a desporto. Depois de fornecerem pontos, uma à outra nas ajudas às respectivas perguntas, começaram a jogar em conjunto. E o nome da tabela, foi subindo lugar a lugar até atingir o pódio. Uns tempos mais tarde, naquele mesmo lugar, seriam pagas (sem segundas intenções) por um estranho, para ganharem e pontuarem. Naquela noite porém, num misto de despeito e desafio, foram incentivadas pelo amigos a provar que realmente mereciam o lugar da tabela que tinham alcançado. Assim, num clássico eles contra elas, prolongou-se a noite. Mas como era de se esperar, instalou-se a anarquia e todos respondiam a todas as perguntas. Exaltavam-se os ânimos, discutiam-se respostas, criticava-se respostas erradas quando escolhidas pela maioria em detrimento de uma opinião solitariamente certa.

No meio, da animação, o mais recente "par" atingido pelas setas misteriosas do cupido, jogava silenciosamente o jogo do rato e do gato. Sem saberem exactamente com o que contar do outro lado. Aproximavam-se e afastavam-se conforme as ondulações dos amigos. Camuflados por eles, insinuavam-se um ao outro de forma discreta para não levantarem novas ondas de embaraço. A dado momento, passaram a barreira do olhar, dando lugar ao toque, sem dúvida premeditado mas disfarçado pelo acaso. A manga da t-shirt dele roçara ao de leve na pele macia dela, a madeixa de cabelo dela, escorregara sobre o ombro dele, enquanto ambos se debruçavam sobre a máquina, para apurar os resultados. Os jogos do toque e foge, atiçavam, no seu íntimo, sensações contraditórias: arrepio, vergonha, ansiedade e ternura. Por fim, recostaram-se um no outro, em silêncio e sem comentários, deixaram-se estar no conforto do encontro, momentâneo, dos seus corpos.

Durou pouco, de repente o atilado futuro médico, agitou-se e retraiu-se. Afastou-se abruptamente, com um olhar atravessado por culpa, medo, incerteza e até um leve esgar de indignação. Apanhando Sofia completamente desprevenida. Ficou muda, um silêncio proveniente da alma. Questionava-se, se teria compreendido tudo errado, se se teria precipitado? Mas todos os sentidos e a sua razão teimavam em dizer-lhe que não estava errada. Mas como não haveria de estar errada, se ele, aquele com quem ela mantivera um discurso silencioso, se comportara assim?! Terá realmente havido esse diálogo? Estaria ele a gozar com ela? Ou estaria ele a marcar pontos entre os amigos? Não, nada disso, era incapaz de aceitar isso, sabia que tinha lido a verdade espelhada nas lentes, que ele usava com certeza para ler os grossos livros de medicina. Convencia-se, a culpa não era dela, porque seria?

O tridente de Neptuno


Uma certa tendência, generalizada, evidenciara-se nessa noite, os rapazes andavam mais santos que as raparigas! Renegavam os maus hábitos do tabaco em detrimento de uma vida mais saudável por entre as ondas surfadas durante o dia, trocavam o teor alcoólico das bebidas coloridas pelos apetitosos gelados que trincavam entre gargalhadas… eles que eram mais velhos, sim mais velhos que elas, mais livres e encorajados a viver a vida de forma mais folgada, faziam-nas sentir demasiado urbanas, deslocadas, num clima de verão que se queria saudável.
As horas foram-se dilatando e numa proporcionalidade inversa, o Barmácia tornara-se pequeno para tanta agitação. Saíram, as ruas que à hora de jantar estavam vazias, enchiam-se agora de gente, quase toda jovem, que aos pares, aos grupos a pé ou de mota circulavam de um lado para o outro. Transportando consigo um ruído alegre.

Foram-se arrastando até à esquina, onde um banco improvisado, o muro que os separava da praia, esperava por eles. Continuaram, a animada conversa, pontuada por piadas ou gracinhas feitas uns aos outros, daquelas que só nos atrevemos a fazer, com quem temos grande intimidade, enfim coisas de miúdos. Destacavam-se da multidão, pela sua diversificidade, amigos ou conhecidos mas todos bastante diferentes, uns tímidos outros galãs, uns cómicos outros sérios, uns exaltados outros alienados, mas todos partilhavam o mesmo tom de pele de fazer inveja, todos partilhavam as mesmas horas do dia, entre as dunas e as ondas do mar, e ali à noite na sua diversidade, reuniam-se entorno das histórias que lhes eram comuns. Do futuro arquitecto ao futuro médico, da engenheira à "artista" encontrava-se de tudo, sempre com aquela efervescência da juventude, do céu como limite.
As atenções viraram-se para José, Zé para os amigos, ele que dentro de alguns anos seria um doutor de bata branca e estetoscópio ao pescoço, se bem que bem longe de saber em que área, cativava a atenção de todos, por meio de um relato pormenorizado, de algumas experiencias de urgências, daquelas de embaraçar o paciente e causar o deboche dos ouvintes. Apesar, de ser o causador de ondas de gargalhadas associadas a expressões de repudia, pena e puro gozo, encobria-se por detrás de uma postura tímida na qual os óculos reforçavam o efeito pretendido.


Foi então que Sofia, reparou nele. Depois do reboliço que causou ter amainado, aproximaram-se casualmente, trocando duas palavras, algo sobre vela. A vela é um dos desportos que a fascinava e que ela de certa forma praticava, provavelmente mesmo o único, tendo em conta a sua aversão a desportos. Ele, por seu turno, mostrava-se entusiasmado com a ideia de se tornar praticante, contara-lhe que tivera uma experiencia, e que se apaixonara pela modalidade. Ironicamente um desporto náutico acendera um rastilho que poucas águas apagariam…

Bastaram duas palavras e uma ideia, para se tornarem em torrentes delas, e todo o ruído em torno tornara-se silêncio, só os dois, no meio da multidão. Os olhos acompanhavam cada palavra e só se desviavam para contornar as linhas do rosto. Os mesmos olhos, procuravam timidamente e de forma fugaz, esbarrar-se com o entusiasmo reflectido no olhar, do outro.
Dificilmente passariam despercebidos, ao olhar escrutínioso dos amigos, notava-se no ar e nos gestos. Sofia, quase que jurava que se ouviriam os seus batimentos cardíacos descompassados, há muito que não sentia nada semelhante, uma espécie de vertigem, de calor, de alegria espontânea e de sorriso instantâneo que teimava em não lhe largar os contornos dos lábios, sentiu uma secura na boca sublinhada por um olhar simultaneamente meloso e tímido. Assim, sem aviso prévio ou sem motivo, tinha-se encantado, e agora, descortinava se algo semelhante se passaria do outro lado. 

Estava certa. Não demorou muito, para que os demais notassem o duplo entusiasmo, e rapidamente, o rapaz que fez todos rir, era alvo das facadinhas dos amigos, e por arrasto, Sofia a "intrusa", também não escapou às investidas humorísticas do grupo. Que se materializariam mais, através da câmara imaginária do futuro arquitecto… um dia Sofia iria descobrir porquê…

Aquela noite ainda estava longe do fim, mas naquele instante sem saber, Sofia, tinha rasgado na sua vida as vias que iriam marcar os próximos anos. Como um tridente a arranhar o solo, feito de areia molhada, desenovelara a sua própria trindade, que era dada por gente: amizade verdadeira; uma espécie de amor generoso e paciente; e por fim uma atracção intelectual conjugada com ciúme que se exprimia na pele.
Os dados estavam lançados… e noite ainda por terminar…