segunda-feira, 7 de abril de 2008

Trivial Pursuit

Esgotadas, as piadas e refrescado o ambiente… a noite prosseguia quente e agitada. Tão quente, que reclamava por líquidos, tão quente que fazia os corpos vibrar ao som de uma música distante. Inebriados pelo som que ecoava a um quarteirão de distância, deixaram-se levar ritmadamente até ele. Estancaram-se em frente, a um prédio branco, que os recebia num pátio, onde funcionava uma esplanada, que de esguelha se reclinava para a rua que dava acesso à praia, e de onde se podia reconhecer o seu contorno. Nas entranhas do pátio, abria-se em arco, a entrada, do que se adivinhava ser um bar. Entraram, deram uma volta, em busca de caras conhecidas. Enquanto, Ana fazia as honras da casa à amiga, ia sussurrando-lhe os segredos do lugar.
Ana, era visivelmente acarinhada por todos, também por eles era tratada como a maninha mais nova, que crescera depressa por causa das suas influências. Espevitada, bem-humorada, travessa, simples, interessada e interessante era sem dúvida o tipo de miúda popular, de fácil trato e de agradável companhia. Muito morena, e de expressões acentuadas, não evidenciava a diferença de idade em relação aos outros, pelo contrário certamente passaria até por mais velha que alguns elementos daquele grupo. Era sem duvida a rapariga-amiga-companheira de aventuras, e não a rapariga-presa-namorada, presença típica nos grupos maioritariamente masculinos. E Sofia, por arrasto deveria ser tida no mesmo contexto, mas cometera um deslize para além de ser a "novidade"…

O bar, dividia-se em quatro espaços, a esplanada, o bar-sala-pista, a esplanada interna, e um recanto que também tinha ligação com o exterior onde repousavam umas máquinas de jogos. Numa das máquinas de jogos, cintilava o nome do famoso jogo de tabuleiro, que testa os conhecimentos dos jogadores – Trivial. O suficiente por tanto, para cativar a atenção das duas amigas, que se achavam, para a idade, bastante informadas e com um nível de cultura expressivo. Desafiaram-se mutuamente, qual das duas saberia mais?! Não foi difícil perceber, que juntas é que eram a força, os conhecimentos das duas, conjugados abrangiam quase todos os temas tratados, Ana era dada às ciências exactas e à música, Sofia à história, artes e espectáculo, e ambas bastante fortes a literatura e simultaneamente bastante fracas a desporto. Depois de fornecerem pontos, uma à outra nas ajudas às respectivas perguntas, começaram a jogar em conjunto. E o nome da tabela, foi subindo lugar a lugar até atingir o pódio. Uns tempos mais tarde, naquele mesmo lugar, seriam pagas (sem segundas intenções) por um estranho, para ganharem e pontuarem. Naquela noite porém, num misto de despeito e desafio, foram incentivadas pelo amigos a provar que realmente mereciam o lugar da tabela que tinham alcançado. Assim, num clássico eles contra elas, prolongou-se a noite. Mas como era de se esperar, instalou-se a anarquia e todos respondiam a todas as perguntas. Exaltavam-se os ânimos, discutiam-se respostas, criticava-se respostas erradas quando escolhidas pela maioria em detrimento de uma opinião solitariamente certa.

No meio, da animação, o mais recente "par" atingido pelas setas misteriosas do cupido, jogava silenciosamente o jogo do rato e do gato. Sem saberem exactamente com o que contar do outro lado. Aproximavam-se e afastavam-se conforme as ondulações dos amigos. Camuflados por eles, insinuavam-se um ao outro de forma discreta para não levantarem novas ondas de embaraço. A dado momento, passaram a barreira do olhar, dando lugar ao toque, sem dúvida premeditado mas disfarçado pelo acaso. A manga da t-shirt dele roçara ao de leve na pele macia dela, a madeixa de cabelo dela, escorregara sobre o ombro dele, enquanto ambos se debruçavam sobre a máquina, para apurar os resultados. Os jogos do toque e foge, atiçavam, no seu íntimo, sensações contraditórias: arrepio, vergonha, ansiedade e ternura. Por fim, recostaram-se um no outro, em silêncio e sem comentários, deixaram-se estar no conforto do encontro, momentâneo, dos seus corpos.

Durou pouco, de repente o atilado futuro médico, agitou-se e retraiu-se. Afastou-se abruptamente, com um olhar atravessado por culpa, medo, incerteza e até um leve esgar de indignação. Apanhando Sofia completamente desprevenida. Ficou muda, um silêncio proveniente da alma. Questionava-se, se teria compreendido tudo errado, se se teria precipitado? Mas todos os sentidos e a sua razão teimavam em dizer-lhe que não estava errada. Mas como não haveria de estar errada, se ele, aquele com quem ela mantivera um discurso silencioso, se comportara assim?! Terá realmente havido esse diálogo? Estaria ele a gozar com ela? Ou estaria ele a marcar pontos entre os amigos? Não, nada disso, era incapaz de aceitar isso, sabia que tinha lido a verdade espelhada nas lentes, que ele usava com certeza para ler os grossos livros de medicina. Convencia-se, a culpa não era dela, porque seria?

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