segunda-feira, 7 de abril de 2008

O Prédio em Construção

De repente a sala do jogo, tornara-se demasiado pequena, claustrofóbica, para que os dois pudessem estar ao mesmo tempo, ali. Felizmente, os outros também acusavam algum cansaço e falta de verbas para continuar a picardia. Assim, mais uma vez em jeito de rebanho deslocaram-se para o exterior.

Em frente ao bar, erguia-se um amontoado de betão, desenhava-se verticalmente um novo edifício, que cortava antipaticamente parte da vista, da rua principal, para o mar. Assentaram arraias, em frente ao edifício. A essa hora da madrugada, os corpos já acusavam o cansaço do sol da tarde, e qualquer lugar era demasiado longe, para a preguiça que arrastavam nos músculos, doridos pela repetida rebentação das ondas matinais. Sem mudanças de relevo, as conversas seguiam os rumos anteriores. Todas menos as que se passavam na cabeça de Sofia. Soterrada em questões e inseguranças, ansiosa por libertar-se num grito, que fosse, mas a sua boa educação não lhe permitia. Queria confrontá-lo, mas faltava-lhe a coragem e temia o ridículo. Sentiu-se afundar numa espiral de controvérsia emocional. Que se exprimia cinicamente, num sorriso e em gestos bem coordenados e harmoniosos.

Olhou, para trás e viu aquele gigante cinzento riscar o céu nocturno, de repente viu que algo estava suspenso, do topo para baixo e que reflectia a luz da aldeia. Foi o sinal que precisava. Irrompeu, pelo esqueleto de betão a dentro, subiu, subiu, e tornou a subir os degraus que a levaram ao topo, ao terraço que fechava o complexo sistema de betão e o abria às estrelas da noite. Fechou os olhos e respirou fundo, numa fracção de segundo estava só, livre e cheia dos elementos que respeitava, o mar, o vento e o luar.

Uma fracção de segundo, foi o que durou o isolamento, quando abriu os olhos, já uma voz vinha no seu encalço, e atrás dela, alguns pares de passos. A voz, não era de quem ela queria, era uma voz arquitectada de enredos e sedução. Quando próxima, manifestou-se preocupada e interessada em acompanhar a loucura demonstrada. Era alto, magro, bem-disposto e cavalheiresco demais para os tempos que correm, agia de forma ambígua tanto poderia querer revelar sedução como atenção ou delicadeza. Finalmente, reparara nele. Ele estava aliviado e visivelmente intrigado com esta pessoa que não lhe dera atenção. Via-se que estava habituado a ser o centro das atenções. E esta nova "amiga" nem reparara nele, e ainda por cima em detrimento de outro, e isso sim desconcertava-o.

A ideia que tinha sido de escape, tornara-se perigosa, afinal nem todos estavam no seu mais lúcido perfil. Alguém, um tanto alcoolizado aproximara-se arriscadamente da berma do edifício. Isso fez com que todos recuassem à entrada firme e sólida do prédio. Bastava de emoções por essa noite. Daí a umas horas, nasceria um novo dia. E tal como chegaram, foram partindo um a um, com promessas de amanha.

Por fim, ficaram novamente as duas, sentadas numa fonte que circundava um ângulo da rua principal, perpendicularmente à fonte, rompia-se na paisagem a rua que deveriam subir, até casa. Enquanto ganhavam coragem, para passar pelas ruas desertas assombradas pelo pinhal, fizeram o balanço da noite, da viagem, das duas, do ano… Levantaram-se e encaminharam-se para casa, ao som das suas vozes a entoar os Loucos de Lisboa.

Trivial Pursuit

Esgotadas, as piadas e refrescado o ambiente… a noite prosseguia quente e agitada. Tão quente, que reclamava por líquidos, tão quente que fazia os corpos vibrar ao som de uma música distante. Inebriados pelo som que ecoava a um quarteirão de distância, deixaram-se levar ritmadamente até ele. Estancaram-se em frente, a um prédio branco, que os recebia num pátio, onde funcionava uma esplanada, que de esguelha se reclinava para a rua que dava acesso à praia, e de onde se podia reconhecer o seu contorno. Nas entranhas do pátio, abria-se em arco, a entrada, do que se adivinhava ser um bar. Entraram, deram uma volta, em busca de caras conhecidas. Enquanto, Ana fazia as honras da casa à amiga, ia sussurrando-lhe os segredos do lugar.
Ana, era visivelmente acarinhada por todos, também por eles era tratada como a maninha mais nova, que crescera depressa por causa das suas influências. Espevitada, bem-humorada, travessa, simples, interessada e interessante era sem dúvida o tipo de miúda popular, de fácil trato e de agradável companhia. Muito morena, e de expressões acentuadas, não evidenciava a diferença de idade em relação aos outros, pelo contrário certamente passaria até por mais velha que alguns elementos daquele grupo. Era sem duvida a rapariga-amiga-companheira de aventuras, e não a rapariga-presa-namorada, presença típica nos grupos maioritariamente masculinos. E Sofia, por arrasto deveria ser tida no mesmo contexto, mas cometera um deslize para além de ser a "novidade"…

O bar, dividia-se em quatro espaços, a esplanada, o bar-sala-pista, a esplanada interna, e um recanto que também tinha ligação com o exterior onde repousavam umas máquinas de jogos. Numa das máquinas de jogos, cintilava o nome do famoso jogo de tabuleiro, que testa os conhecimentos dos jogadores – Trivial. O suficiente por tanto, para cativar a atenção das duas amigas, que se achavam, para a idade, bastante informadas e com um nível de cultura expressivo. Desafiaram-se mutuamente, qual das duas saberia mais?! Não foi difícil perceber, que juntas é que eram a força, os conhecimentos das duas, conjugados abrangiam quase todos os temas tratados, Ana era dada às ciências exactas e à música, Sofia à história, artes e espectáculo, e ambas bastante fortes a literatura e simultaneamente bastante fracas a desporto. Depois de fornecerem pontos, uma à outra nas ajudas às respectivas perguntas, começaram a jogar em conjunto. E o nome da tabela, foi subindo lugar a lugar até atingir o pódio. Uns tempos mais tarde, naquele mesmo lugar, seriam pagas (sem segundas intenções) por um estranho, para ganharem e pontuarem. Naquela noite porém, num misto de despeito e desafio, foram incentivadas pelo amigos a provar que realmente mereciam o lugar da tabela que tinham alcançado. Assim, num clássico eles contra elas, prolongou-se a noite. Mas como era de se esperar, instalou-se a anarquia e todos respondiam a todas as perguntas. Exaltavam-se os ânimos, discutiam-se respostas, criticava-se respostas erradas quando escolhidas pela maioria em detrimento de uma opinião solitariamente certa.

No meio, da animação, o mais recente "par" atingido pelas setas misteriosas do cupido, jogava silenciosamente o jogo do rato e do gato. Sem saberem exactamente com o que contar do outro lado. Aproximavam-se e afastavam-se conforme as ondulações dos amigos. Camuflados por eles, insinuavam-se um ao outro de forma discreta para não levantarem novas ondas de embaraço. A dado momento, passaram a barreira do olhar, dando lugar ao toque, sem dúvida premeditado mas disfarçado pelo acaso. A manga da t-shirt dele roçara ao de leve na pele macia dela, a madeixa de cabelo dela, escorregara sobre o ombro dele, enquanto ambos se debruçavam sobre a máquina, para apurar os resultados. Os jogos do toque e foge, atiçavam, no seu íntimo, sensações contraditórias: arrepio, vergonha, ansiedade e ternura. Por fim, recostaram-se um no outro, em silêncio e sem comentários, deixaram-se estar no conforto do encontro, momentâneo, dos seus corpos.

Durou pouco, de repente o atilado futuro médico, agitou-se e retraiu-se. Afastou-se abruptamente, com um olhar atravessado por culpa, medo, incerteza e até um leve esgar de indignação. Apanhando Sofia completamente desprevenida. Ficou muda, um silêncio proveniente da alma. Questionava-se, se teria compreendido tudo errado, se se teria precipitado? Mas todos os sentidos e a sua razão teimavam em dizer-lhe que não estava errada. Mas como não haveria de estar errada, se ele, aquele com quem ela mantivera um discurso silencioso, se comportara assim?! Terá realmente havido esse diálogo? Estaria ele a gozar com ela? Ou estaria ele a marcar pontos entre os amigos? Não, nada disso, era incapaz de aceitar isso, sabia que tinha lido a verdade espelhada nas lentes, que ele usava com certeza para ler os grossos livros de medicina. Convencia-se, a culpa não era dela, porque seria?

O tridente de Neptuno


Uma certa tendência, generalizada, evidenciara-se nessa noite, os rapazes andavam mais santos que as raparigas! Renegavam os maus hábitos do tabaco em detrimento de uma vida mais saudável por entre as ondas surfadas durante o dia, trocavam o teor alcoólico das bebidas coloridas pelos apetitosos gelados que trincavam entre gargalhadas… eles que eram mais velhos, sim mais velhos que elas, mais livres e encorajados a viver a vida de forma mais folgada, faziam-nas sentir demasiado urbanas, deslocadas, num clima de verão que se queria saudável.
As horas foram-se dilatando e numa proporcionalidade inversa, o Barmácia tornara-se pequeno para tanta agitação. Saíram, as ruas que à hora de jantar estavam vazias, enchiam-se agora de gente, quase toda jovem, que aos pares, aos grupos a pé ou de mota circulavam de um lado para o outro. Transportando consigo um ruído alegre.

Foram-se arrastando até à esquina, onde um banco improvisado, o muro que os separava da praia, esperava por eles. Continuaram, a animada conversa, pontuada por piadas ou gracinhas feitas uns aos outros, daquelas que só nos atrevemos a fazer, com quem temos grande intimidade, enfim coisas de miúdos. Destacavam-se da multidão, pela sua diversificidade, amigos ou conhecidos mas todos bastante diferentes, uns tímidos outros galãs, uns cómicos outros sérios, uns exaltados outros alienados, mas todos partilhavam o mesmo tom de pele de fazer inveja, todos partilhavam as mesmas horas do dia, entre as dunas e as ondas do mar, e ali à noite na sua diversidade, reuniam-se entorno das histórias que lhes eram comuns. Do futuro arquitecto ao futuro médico, da engenheira à "artista" encontrava-se de tudo, sempre com aquela efervescência da juventude, do céu como limite.
As atenções viraram-se para José, Zé para os amigos, ele que dentro de alguns anos seria um doutor de bata branca e estetoscópio ao pescoço, se bem que bem longe de saber em que área, cativava a atenção de todos, por meio de um relato pormenorizado, de algumas experiencias de urgências, daquelas de embaraçar o paciente e causar o deboche dos ouvintes. Apesar, de ser o causador de ondas de gargalhadas associadas a expressões de repudia, pena e puro gozo, encobria-se por detrás de uma postura tímida na qual os óculos reforçavam o efeito pretendido.


Foi então que Sofia, reparou nele. Depois do reboliço que causou ter amainado, aproximaram-se casualmente, trocando duas palavras, algo sobre vela. A vela é um dos desportos que a fascinava e que ela de certa forma praticava, provavelmente mesmo o único, tendo em conta a sua aversão a desportos. Ele, por seu turno, mostrava-se entusiasmado com a ideia de se tornar praticante, contara-lhe que tivera uma experiencia, e que se apaixonara pela modalidade. Ironicamente um desporto náutico acendera um rastilho que poucas águas apagariam…

Bastaram duas palavras e uma ideia, para se tornarem em torrentes delas, e todo o ruído em torno tornara-se silêncio, só os dois, no meio da multidão. Os olhos acompanhavam cada palavra e só se desviavam para contornar as linhas do rosto. Os mesmos olhos, procuravam timidamente e de forma fugaz, esbarrar-se com o entusiasmo reflectido no olhar, do outro.
Dificilmente passariam despercebidos, ao olhar escrutínioso dos amigos, notava-se no ar e nos gestos. Sofia, quase que jurava que se ouviriam os seus batimentos cardíacos descompassados, há muito que não sentia nada semelhante, uma espécie de vertigem, de calor, de alegria espontânea e de sorriso instantâneo que teimava em não lhe largar os contornos dos lábios, sentiu uma secura na boca sublinhada por um olhar simultaneamente meloso e tímido. Assim, sem aviso prévio ou sem motivo, tinha-se encantado, e agora, descortinava se algo semelhante se passaria do outro lado. 

Estava certa. Não demorou muito, para que os demais notassem o duplo entusiasmo, e rapidamente, o rapaz que fez todos rir, era alvo das facadinhas dos amigos, e por arrasto, Sofia a "intrusa", também não escapou às investidas humorísticas do grupo. Que se materializariam mais, através da câmara imaginária do futuro arquitecto… um dia Sofia iria descobrir porquê…

Aquela noite ainda estava longe do fim, mas naquele instante sem saber, Sofia, tinha rasgado na sua vida as vias que iriam marcar os próximos anos. Como um tridente a arranhar o solo, feito de areia molhada, desenovelara a sua própria trindade, que era dada por gente: amizade verdadeira; uma espécie de amor generoso e paciente; e por fim uma atracção intelectual conjugada com ciúme que se exprimia na pele.
Os dados estavam lançados… e noite ainda por terminar…


segunda-feira, 31 de março de 2008

A sobremesa

O jantar, tinha sido com uma agradável vista sobre um mar, que se decorara de negro, e a sobremesa decorria agora numa sala adjacente à do jantar.
Estavam as duas de férias, sozinhas, e já se sentiam tão adultas e vividas, que só poderiam escolher para sobremesa umas caipirinhas. Eram, a escolha certa para brindar a esse gosto adocicado de liberdade.

Sofia, tinha atingido nesse ano a maioridade, e como se isso já não bastasse, esperava o resultado da candidatura à faculdade. Andava tensa desde o inicio do verão mas tentava a todo o custo disfarçar, às vezes sem efeito, procurava concentrar-se noutras coisas, ou ocupar-se em fazer nada, era para isso que este verão serviria, para NÃO fazer nada, para além de se divertir.
À Ana, ainda lhe faltavam um par de anitos para passar por esta amarga espera. Apesar de ser ela a anfitriã, não conseguia fazer com que Sofia, não se sentisse responsável também por ela, não de uma forma maternal, mas em jeito de irmã mais velha (se bem que como filha única não sabia se era exactamente assim que se sentiam os irmãos mais velhos em relação aos mais novos). Mas este era o seu jeito de se preocupar com os outros. Aliás, havia nela, uma incrível necessidade de se preocupar com os outros, tornando-se por vezes realmente irritante. No seu seio de amigos, era vista como a mamã, pelo conselho e advertência, que tinha sempre pronto na ponta da língua, um dia iria descobrir que a sua melhor qualidade poderia ser simultaneamente o seu pior defeito.

Aquela praia, tornara-se a ilha deserta para onde levavam os amigos, longe dos olhares reprovadores dos pais, podiam dar azo à criatividade e esgotar as horas da noite bem longe das quatro paredes de um quarto.

A hora combinada, aproximava-se e em breve a mesa agora apenas ocupada pelas duas, esconder-se-ia, por baixo de vários braços, mãos a gesticular, telemóveis, copos e bases de copos. Sofia, puxou do cigarro e olhou para a janela em busca de coragem, para distribuir sorrisos e amabilidades a desconhecidos, devia isso à Ana e sobretudo a ela, era a sua prova de fogo.
Voltou à realidade pela voz da amiga, que lhe cravava um cigarro, não é costume faze-lo, tem vezes… os de Ana, tinham acabado, e ela demonstrava preguiça em ir à máquina, que ficava do outro lado da sala. Nesse tempo, os cigarros ainda estavam ao alcance da mesada que recebiam, mas já se adivinhavam piores dias…

Foram chegando, uma hora depois estavam rodeadas, de gente bem-disposta que se atropelava em conversas. Actualizavam a amiga, quanto às ultimas cusquices da zona, quem andava com quem, que um bar novo tinha aberto, que outro tinha mudado de gerência, que o miúdo radical da aldeia vizinha prometera desforra ao joãozinho, por causa de uma corrida de moto 4… no meio destas banalidades vividas ao rubro, Sofia deixou-se ir embalada pelo som desta salganhada de gente, ia tomando as histórias como suas…

Manifestamente, eram mais rapazes que raparigas em volta daquela mesa, para além das duas, contava-se mais uma rapariga - que seria namorada de alguém e outra que pontualmente aparecia para dar o seu cunho pessoal ao relato. Sem surpresas, estava bastante marcado nas suas experiencias que se entendiam melhor com rapazes do que com raparigas, efectivamente tinham sido dois rapazes que as fizeram cruzar caminhos, dois melhores amigos. Ironicamente aquela noite trazia consigo, novos conhecimentos, portanto novos rumos…

 

A Viagem

Uma aragem quente de fim de tarde enrolava nela pedaços de uma jornada, quiçá de um ano atribulado. Afinal tudo, se resumia a este momento…
duas jovens que mal se conheciam sentadas numa paragem de autocarro deserta.

O ar estava quente, abafado por um verão que se alongara, a paisagem inóspita que as engolia, cobria-se de tons dourados e vermelhos. Fazendo-as sorrir, cansadas e felizes.
Expectantes, olhavam para aquela imensidão que se reflectia abruptamente nos seus espíritos inquietos. O autocarro parou. Entraram e deram largas à imaginação, a poucos quilómetros junto à praia encontrariam o seu destino. Um daqueles destinos, que não se finda com o calor do verão, nem com paragens de autocarro, talvez daqueles destinos que soltam amarras entre marés…


 

Tinham-se conhecido há poucos meses, mas a aproximação acontecera exactamente no inicio desse verão.
Coincidências, não existiam para elas, preferiam justificar estes acasos da vida com respostas filosoficamente rebuscadas, temperadas com a misticidade da vida e do espírito. Tudo acontecia porque o alinhamento cósmico assim o previra. Ele, sim o verdadeiro responsável, não elas, já mais o haviam previsto e ainda menos o que estaria para vir.

Ana, a mais nova das duas, é que falara deste local, conhecia-o bem, ali passara verões e fins-de-semana da meninice. Ali, naquela mesma zona, entre pinheiros e grãos de areia, deu os primeiros passos de uma adolescência que não se mostrava pacifica. Morena, de olhos negros brilhantes, daqueles que não deixam escapar detalhes, nem se permitem a passar despercebidos. Descrevia cada pedaço de terra e de gente, como se folheasse um velho diário, atropelando-se em fragmentos e desejos entusiasmados. Tentando sufocar a ansiedade, própria de anfitriã, discorria pensamentos, para os corrigir e alterar imediatamente… preocupava-se visivelmente com o que poderia ser possível ou não fazer, para tornar estes dias, nuns dias dignos de pertencer a um livro de memórias.

- Ir a onde? Fazer o quê? Conhecer quem?!

Interrogava-se Sofia, suspensa no meio dos pensamentos cambaleantes da amiga, submersa em tanta informação fragmentada, deixou-se levar pelos seus próprios pensamentos e expectativas.
Lembrava-se, o local não lhe era estranho de todo, em tempos havia passado por lá de noite, naquelas actividades de escuteiros que duram uma madrugada, mas na verdade não lhe era estranho por isso mas porque a mãe lhe havia falado desse local, e segundo se lembrava eram boas as recordações que esta guardava, lembrava-se também que isso tinha contado um ponto a favor, quando a informou que tinha em mente esgueirar-se com uma nova amiga, por uns dias para aquele destino. E ali, estava ela numa terra que em tempos fora de pescadores, à espera do que lhe poderia cair na rede.

À chegada, estava já tudo planeado, nessa noite iriam a casa só para se desfazerem do peso arrastado das malas, arranjarem-se, comer qualquer coisa para depois saírem, dariam um giro pela aldeia para que Sofia conhece-se os velhos amigos de Ana. Tudo estava planeado, tudo, menos a falta de gás. A casa estendia-se à entrada com um tapete verde, e o sapo que estava de guarda, camuflado no tapete, recebia-as com um ar entediado. Uma casa de piso térreo, em forma de L, branca como a região pedia, mostrava-se pitoresca e acolhedora, resguardada no fundo de uma rua, de costas voltadas ao pinhal e de janelas viradas à maresia, encaminhava-as para uma cozinha pequenina, que servia de entrada prática, a pés e corpos cobertos de areia.

Os sacos tinham sido largados, um pouco por todo o lado, a sala revelara-se muito acolhedora, cadeirões de verga, cobertos por almofadas floridas e um sofá escondido por mantas e tecidos, preenchiam o espaço que se completava com uma lareira extinta, e uma mesa que adivinhava algo paranormal. Afinal estavam no sopé do monte da Lua…

- Não, há gás! A bilha está vazia.
Constatou, Ana ao verificar porque é que a torneira de água quente teimava em deitar só água fria.

- A serio? E agora, a esta hora não deve haver sitio nenhum para arranjarmos uma…
Desmotivada, respondia à amiga enquanto abria as portadas da sala para o jardim.

-Não, interessa, amanhã tratamos disso, hoje vamos jantar ao Barmácia.

- À farmácia?! 'tás tonta, achas que me serve de jantar umas aspirinas? Já agora como sobremesa um prozacquesito!

- ah ah ah, tu é que és tola! Eu não disse farmácia, disse Barmácia, é um spot onde servem uns hambúrgueres e também é um bar! Duh!

Sofia, sentiu-se corar. Num misto de indignação e ingenuidade. Como ela odeia estas coisas, a cara dela nunca vai de acordo com o discurso, facilmente espelha aquela vermelhidão, que a embaraça constantemente… e isso contraria completamente a sua maneira de ser, gosta de ter tudo delineado, faz o género de aventureira, mas na realidade só ela sabe como adora a ordem, de ideias e dos actos, pouco lhe agrada os sobressaltos, tudo pode ou deveria ser planeado. E isto de ser apanhada, pela amiga mais nova, mais a súbita mudança de planos, vinha chocalhar em demasia a sua postura de segurança número 345, usada só para defesa, de locais e pessoas que mal conhece!
Agitou-se ainda mais, quando reparou que a amiga, pegara no telemóvel e rolara por uma lista infindável de nomes, à procura de companhia para o jantar.
Sossegou momentaneamente, quando a central telefónica resultara em zero, em companhia para o jantar, mas o esforço da amiga tornou-se mais produtivo, demasiado, produtivo para a sobremesa, por alto já contara cerca dez nomes…

terça-feira, 3 de abril de 2007

Pitt Bull


Eu Cão
Tu ladras
Ele morde
Nós fugimos
Vós assistis
Eles Apostam




(co-autoria de Rosa Santana)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Sindrome do amor bloqueado

Voltei, para mais um discorrer de palavras para as quais não encontro sentido, o que eu já desconfiava tornou-se quase certeza esta semana,  um tipo de sindroma - amor bloqueado - amores que se pensam correspondidos, mas que nunca se concretizam, e que ficam entranhados em nós e não nos deixam viver porque a velha e amarga esperança instala-se e o resto do mundo não tem interesse sem ele, os outros perdem o encanto, negamos a partida o encanto dos outros simplesmente porque não se aproximam do nosso belo ideal projectado nesses amores frustrados... que merda, perdemos tanto tempo num mundo onirico, numa fantasia, e a vida passa a ser uma merda simplesmente porque não é mais como um filme ou o sonhos que nós construímos com pequenos resíduos de uma realidade que mal provámos...

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Sentir: NICKLES

É a segunda vez este ano...


A ausência de alguém no pensamento, esta a tornar-se um hábito, um triste hábito... por assim dizer.

Será que as minhas defesas resolveram inventar este novo modelo? O de não pensar em ninguém o de não ter ninguém, assim não sofro de ansiedade, de desgosto... mas também não sofro de reconforto, de calor no peito quando se fala desse alguém, nem de pensamentos esvoaçantes e criativos que estimulam a alma de cada um, não tenho aqueles suspiros profundos, nem a cabeça a viajar para destinos indefinidos...

Confesso que não gosto de me sentir assim, confesso que sou movida de paixões arrebatadoras mas que agora nem perto lá ando, estou gelada por dentro e não fui eu que optei, terá a idade a ver com isto?! Estarei mais exigente ou menos sortuda?! Acerto sempre no alvo errado, iludo-me com um olhar, quase que me entrego por meio de duas frases.. .Mas onde andam eles?!! Aqueles que têm trunfos p me conquistarem? Será que existem… Por favor digam que sim, se não n sei o ke fazer já está difícil mudar certas decisões e opiniões... mas poderei eu encontrá-los... serei eu compatível com o meu ideal?

Vejamos eu gosto de determinado tipo de pessoas mas será que esse tipo gosta de pessoas do meu tipo?!

Bem, é melhor nem pensar nisso, portanto prefiro ir p rua viver e talvez um dia destes distraidamente apareça algum do meu ideal a gostar do meu tipo...

Até lá vou-me aguentando à “bronca”... de n sentir nada...

sábado, 17 de junho de 2006

Nunca Mais

E nunca mais voltar a escrever... nunca mais voltar a pensar... nunca mais querer sentir..
Sentir o que tão vago se pode ser, sentir que somos pedaço de ar... e simplesmente admiti-lo… o não viver por vontade, diluir o veneno no leite.

O recusar-se a participar na vida que nos ofereceram, o andar nos bastidores por vontade, e aqui e ali dar uma espreitadela à realidade,

O estar presente sem se ser notado, o prazer de assim ficar, o sorriso que não sai... por teimosia e a expressão seria que fica por ousadia…

Desafiar um condado, reino ou fantasia, simplesmente pelo gozo que me dá, e na noite entrego-me ao nunca mais escrever... ao nunca mais pensar... nunca mais sentir, como podem ler neste texto que por mera distracção é escrito à luz de uma lua que não existe que não mostra a sua face e finge que nos inspira e que nos torna mais românticos!

O amor que vá ao ar, mais outra mentira que nos contaram, mas que insistimos em acreditar, e uma e duas e três e quatro e cinco... e todas as vezes que forem precisas... ai fomos tão bem ensinados... que já vai tarde para aprender que metade do mal que condenamos só acontece que achamos que existe um bem… um bem para quem?!

Experimenta ser parasita numa noite que não é de ninguém, suga o sangue do próximo, força grita!! Torna-te podre, chega ao fundo do poço e ri-te muito na cara dos que lá estão, porque tu foste por opção, e podes sempre voltar, não te esqueças também que das tuas mãos provavelmente alguns lá foram parar... sê vampiro da vida, morde cada vítima e partilha o banquete, parte antes do fim... não olhes para trás e solta aquela gargalhada que entra pelos ouvidos e escorre pela espinha. E quando assim souberes viver... volta à tona e olha para o sol…

Não, está mais brilhante?! Ou já era o negro tão cómodo que já não consegues abrir os olhos? Abre-os - JÁ - é uma ordem!! Ficas cego mas depois aprenderás a ver que afinal na cor não há felicidade, mas há na vida, coisas que ta podem proporcionar...


Vá lá, tem coragem, n há nada a perder, se ganhas-te nas trevas...

Esquece, vai ser duro o teu percurso, bastante mais do que lá em baixo... mas verás e aprenderás coisas que os reis dos dias de sol nunca verão ou saberão.

Não há nada para te recompensar pelo esforço... injusto dirás tu... mas...

No fim afinal... deixas-te de ser rato e passas-te a ser homem.

domingo, 10 de abril de 2005

Penumbra

Tenho-te em mim,


Preso nas memorias dos meus sentidos...
És a brisa da manhã que quero que venha ao rosto,

Com o perfume do teu corpo,

Temo o mau presságio...

Que seja só a brisa...

Tornaste-te arrepio que ainda estremece...

Mesmo quando há muito não me tocas...


Se mal chegaste a aparecer, porque te queres ir?

Quem te leva para longe de ti? Tu?